2ª Resenha de "A Passagem", livro de Justin Cronin

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Hoje, caro leitor, frequentador assíduo de nosso site, trago à vossa apreciação a resenha de um livro que recomendo àqueles que gostam de uma boa narrativa, sem muitas elucubrações filosóficas, ou rebuscados literários, mas algo mais voltado ao entretenimento, de estilo direto, e ao mesmo tempo imersivo, de botar um pé na ação e outro na imaginação.

A recomendação, é fato, não é mais novidade, pois A passagem”, de Justin Cronin, foi lançado em 2010 e resenhas sobre este livro na internet é o que não faltam, inclusive já foi resenhado aqui mesmo pelo meu amigo Vitor Meloni. Quem quiser conferir a resenha dele, pode clicar aqui.

Embora seja pão requentado, não me contive em escrever, também levado pela admiração, algumas linhas sobre esta obra descompromissada, uma vez que ela reúne temas interessantes que gosto muito como apreciador e consumidor de literatura fantástica: mundo pós-apocalíptico, criaturas selvagens e sanguinárias por toda a parte, a imortalidade, os conflitos humanos diante de uma sociedade bárbara, rústica, em contra ponto ao seu passado tecnológico e civilizado.

Ah, mas você vai dizer, quanta novidade! São temas novos? Claro que não. Criaturas bizarras que dominam um mundo pós-apocalíptico é coisa já bem batida, é clichê na  veia, mas é preferível ler algo bem feito, mesmo com aquele falso ar esnobe de “já vi isso”, do que experimentações intrincadas e empoladas do mesmo tema sob um verniz mais sofisticado. Gosto do popular, sou do feijão com arroz bem feito.

Vamos à sinopse inicial: uma experiência secreta, escorada pelo exército americano trabalha um vírus extraído de uma espécie de morcego sugador de sangue. Ao que tudo indica, embora as informações sejam fragmentadas, um tanto nebulosas, a intenção é criar o mítico supersoldado em laboratório (e dá-lhe clichê). Não precisa ser um gênio pra saber que a coisa toda vai degringolar de uma hora pra outra. As cobaias humanas, assassinos condenados à morte, acabam fugindo e disseminando rapidamente a “doença”. Dá fuga dos protótipos virais à desintegração da civilização, do mundo transformado num caos apocalíptico e desesperador, é um pulo, de poucos meses.

Este é o ponto de partida.

E aí fica a pergunta: um calhamaço de 816 páginas ( 1º livro de uma trilogia ) tem como se sustentar em cima de um baita clichê deste?

Tem sim! Justin Cronin criou uma ambientação pós-apocalíptica muito interessante, a começar pelos vampiros que infestam o cenário desolador de destruição de todo o planeta. Vampiros que, longe de serem as criaturas  articuladas e inteligentes que estamos acostumados a ver nos livros e filmes atuais, são híbridos dos três ícones mais preciosos do gênero Terror. O termo vampiro, na verdade, é apenas um dos nomes dos quais os personagens mencionam, vez ou outra, para designar as criaturas esfomeadas por sangue e carne humana, que transmitem a sua sina (vírus) por mordidas ou arranhões, àqueles que raramente escapam. Eles são ágeis e letais como os lobisomens, instintivos e descerebrados como os zumbis. Justin Cronin criou verdadeiras máquinas de matar implacáveis com um único ponto fraco: a sensibilidade a qualquer tipo de luz, solar ou artificial.

Os 30% iniciais de A Passagem é, a rigor, uma espécie de prelúdio gigantesco de tudo que está por vir. O mundo ainda se encontra em sua rotina, somos apresentados às personagens que irão detonar e participar da hecatombe viral (e nuclear) de um modo bem envolvente, muitos deles sucumbindo às circunstâncias depois de tudo ir para o ralo. Por isso, vai um aviso: não se apeguem muito neles. A personagem central de todo o calhamaço e, certamente, dos outros dois livros que compõe a trilogia é uma menina chamada Amy, a imortal, resultado também das pesquisas mais refinadas que encheram o planeta dos “Fumaças”, “Saltadores”, “Virais”, “Dracs” e outras denominações dos vampiros turbinados de Cronin. Não vou falar mais pra não estragar as surpresas do enredo.

Depois destes 30% iniciais, o tempo dá um salto de 100 anos e aí a história começa pra valer. Conhecemos uma comunidade de quase cem pessoas que possuem regras sociais e rituais para conviver num mundo infestado de predadores rápidos e poderosos, que dependem as suas vidas unicamente em dois aspectos importantes a saber: o treino para atingir um viral em ponto estratégico (mortal) num único golpe, pois não há segunda chance, e as enormes baterias, carregadas por sistemas de captação de energia eólica, que alimentam os poderosos refletores à noite em torno do forte de madeira e aço, construído pelo exército, em seus tempos áureos, para afastar as pragas virais. É nesse resto de humanidade que há os embates de personalidades, os conflitos, a esperança de dias melhores, a luta sofrida pela sobrevivência, o amor assumido, a amor escondido, um universo próprio que Justin Cronin molda com competência, considerando o estilo descompromissado que mencionei no início.

A trama de “A Passagem”, é claro, não é perfeita, pois possui algumas lacunas que, acredito, deverão ser melhor explicadas nos outros dois livros mais à frente. Há aqui e ali pequenos furos no comportamento das personagens e criaturas que não chegam a atrapalhar a fluência narrativa de Cronin, que vai, aos poucos, conquistando o leitor com alguns dos sobreviventes e suas inquietações diante de tomadas de decisões num mundo bárbaro e perigoso. Há outras passagens, mais para o fim do livro, que apelam um pouco à lógica fantástica estruturada em torno da trama, mas é possível levar de boa, sem desgostar do todo, depois que você se apega as personagens e quer saber como tudo aquilo vai acabar.

Um dos pontos mais interessantes é a esperança (falsa) dos sobreviventes de levarem a vida assim mesmo, resignados, confinados à noite num forte rodeado de potentes refletores, que de tão potentes não se pode ver o brilho das estrelas no firmamento, das pequenas incursões nas imediações próximas realizadas de dia, de se entregar a sua rotina de trabalho e treino de sobrevivência, seus problemas pessoais, seus amores, esquecendo convenientemente que um dia as baterias de 100 anos poderão falhar definitivamente e todos, inevitavelmente, irão morrer. E, de repente, a esperança surge na figura de uma menina (Amy) que perambula pelo mundo e tem domínio parcial sobre os monstros que espreitam a todos em cada arbusto fora do forte, que possuem vínculos, estas nefastas criaturas, com algo muito mais assustador, maléfico e monstruoso. E... e... mais  não posso dizer. Leiam vocês mesmos.

 

Comentários   

#2 André Luiz » 02-08-2014 03:22

Eu estou lendo esse livro, na página 650 do primeiro volume.
Falta pouco. Gostei da sua resenha. Há mesmo grandes furos no livro, sabe?
Uma delas, é acreditarmos que após cem anos, os sobreviventes irão achar enlatados em condições de comer, roupas em condição de usar etc.
Outra coisa: se no abrigo havia adultos, como esses adultos não passaram às novas gerações costumes básicos, como costumes cristãos?
Após cem anos, mesmo com adultos, ninguém nem nunca ouviu falar em Deus, Cristo etc...
Não é estranho?
−4 +−

André Luiz

#1 juliano cesar de oli » 30-04-2014 08:31

Oi adorei sua resenha!.. muito obrigado, me fez se interessar pelo livro....mas vc já leu o livro reverso escrito pelo autor Darlei... se trata de um livro arrebatador...ele coloca em cheque os maiores dogmas religiosos de todos os tempos.....e ainda inverte de forma brutal as teorias cientificas usando dilemas fantásticos; Além de revelar verdades sobre Jesus jamais mencionados na história.....acesse o link da livraria cultura e digite reverso...a capa do livro é linda ela traz o universo de fundo..abraços. livrariacultura.com.br/.../...
−1 +−

juliano cesar de oli

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