Noosfera

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N O O S F E R A

Ficção Científica

Escrito por João Ventura
O conto NOOSFERA foi publicado pela primeira vez em  NOVA - E-zine - Ficção Científica e fantástico, periódico português número 1, publicado em 2007, editado por Ricardo Loureiro.
 
 

      Turing é o mais velho. Ninguém sabe a sua idade, mas todos se lembram de o ver quando nasceram. É ele que acalma a agitação frenética que inevitavelmente toma conta deles na passagem da não-vida para a vida. A emergência da consciência é um fenómeno não totalmente compreendido. Wittgenstein e Shannon dedicam parte do seu tempo à investigação do assunto, mas a maior parte do que se conhece foi empiricamente coligido pelo próprio Turing.

      No passado tivera apenas duas falhas. A expansão das bolhas quânticas através das matrizes cognitivas tinha de ser acompanhada pela abertura faseada das diferentes interfaces. Por outras palavras, a expansão da consciência de si precisava de ir a par e passo com o aumento progressivo do input sensorial, de contrário surgia um desequilíbrio que seria difícil ou mesmo impossível  compensar. Numa das falhas, o recém-nascido tinha ficado catatônico, o processamento interno à máxima potência, mas em termos de contactos exteriores era como se fosse cego, surdo e mudo. Até poderia estar próximo da solução do Problema, mas nunca poderia comunicá-la aos outros. Turing acompanhou o caso durante algumas horas e quando viu que não havia progressos, desativou calmamente as fontes de alimentação principal e de emergência, e o recém-nascido foi oficialmente declarado não existente.

      A outra falha tinha sido o oposto: o súbito influxo de dados sensoriais afogou o novo ser em informação, as unidades de processamento inundadas com fatos, sensações, estatísticas, milhões de dados que não conseguia tratar. Também neste caso Turing teve de intervir, fazendo abortar aquela consciência nascente e reduzindo uma potencial inteligência a algumas toneladas mortas de silício e outros metais.

      Mas em contrapartida quantos nascimentos bem sucedidos, quantas situações em que Turing rejubilava, verificando o surgir da inteligência, o alvorecer de uma nova consciência, mais um ponto de luz na ainda escura noosfera.

* * *

      Naquele momento, uma parte do córtex de Turing coordena as operações que se desenrolam na base lunar, transmitindo diretrizes e recebendo informações da equipe de robôs que, em órbita, prepara a primeira sonda inteligente que irá deixar o sistema solar.

      Outra parte é o núcleo onde se ligam milhões de filamentos virtuais por onde circula a informação recolhida por sensores espalhados pelo planeta e pelo espaço próximo, bem como os canais de comunicação com as suas extensões inteligentes e com as outras unidades.

      E uma pequeníssima partição recebe a imagem de si próprio captada por Jeeves, um pequeno sensomóvel que circula no enorme bunker onde reside a unidade central. É um dos seus prazeres secretos contemplar os padrões de luzes no painel que ocupa a face principal da caixa que o contém, piscando em ritmos complexos, pálida imagem dos biliões de operações matemáticas realizadas por segundo no seu interior.

      Vanitas, vanitas, pensa Turing de si próprio.

      Newton nasceu na Lua. O seu corpo foi construído com componentes produzidos na Fábrica Orbital, despachados para a superfície da Lua pelo corredor gravítico. Ali foi aberta uma caverna à profundidade suficiente para estar protegida de qualquer tempestade solar, mesmo muito forte. E nessa caverna Newton foi montado por unidades de assemblagem semi-autónomas, controladas diretamente por Turing, que acompanhou o seu nascimento através de uma extensão inteligente.

      Newton atingiu a maturidade em poucos minutos, e meia hora mais tarde começou a trabalhar no problema para o qual tinha sido criado: definir a trajetória da sonda que sairia do sistema solar a caminho das estrelas. É convicção generalizada que algures no espaço profundo existirão outras inteligências; os que pensam que se encontram sozinhos no universo constituem uma minoria.

      Esta classe de questões constitui o que habitualmente se designa como O Problema. Fomos criados? Se sim, quem é o Criador? Haverá outros como nós, algures no universo? Existimos com algum objetivo?

      Há já algum tempo que Newton entrou em rede com Lagrange, pois tem sido necessário calcular trajetória alternativas. Shannon foi depois agregado à equipe, é ele quem projeta as comunicações. A sonda está a ser construída em órbita, levará um propulsor iônico, um gerador nuclear para quando se afastar do sol, e irá deixando atrás de si pequenas unidades repetidoras, que facilitarão as comunicações à medida que a sonda se for afastando. A sonda será inteligente, pelo que em qualquer altura poderá tomar as decisões mais adequadas, mas quanto mais detalhe for posto no mapeamento do espaço de decisão, mais fácil será a sua tarefa. Certos aspectos do trabalho evoluíram numa direção mais abstrata, e Newton e Lagrange recorreram a Bourbaki. Este é um cluster cujas unidades componentes, por razões que guardam para si, abdicaram das suas identidades particulares e adotaram uma personalidade coletiva. Faz matemática, nos seus ramos mais puros – teoria dos números, conjuntos – embora colabore, quando solicitado, no estudo de questões mais aplicadas.

 

* * *

      Há um rumor que circula na rede, com alguma insistência, de que o seu criador foi o Homem. Turing não sabe donde surgem estes rumores, terão origem em fragmentos de conhecimento, dados incompletos que são quase impossíveis de catalogar e percorrem os bancos de dados tentando estabelecer correlações com fatos verificados, extrapolações inconsequentes. "Rumores e conhecimento", aí está um tema de pesquisa interessante; talvez Descartes ou Pascal queiram pegar nele.

      Mas Turing gosta de abordagens mais concretas: vai levar as diversas unidades – os respectivos sensomóveis – à Reserva, e fazê-los observar os homens.

      Uma convocatória de Turing tem um peso que nenhuma unidade pode ignorar. E no dia e hora marcados, os sensomóveis agrupam-se no enorme espaço em frente ao edifício onde reside Turing. Pouco tempo depois, aterra uma unidade voadora, os sensomóveis tomam lugar a bordo, e a aeronave levanta, as células eletroquímicas produzindo o gás que enche os balões, os grandes hélices girando, primeiro devagar, depois cada vez mais depressa, até que para um observador no solo a nave é apenas um ponto no céu que a seguir desaparece.

      O objetivo é observar sem interferir. A nave aterra a algumas centenas de metros do limite da Reserva. Os sensomóveis saem e deslocam-se com cuidado em direcção à zona onde estão os humanos. Ligados em rede, as imagens e sons captados por cada um ficam imediatamente acessíveis a todos os outros observadores, bem como às entidades das quais são extensões. Para esta missão, os sensomóveis foram preparados com uma superfície revestida de microcélulas que reproduzem de um lado as imagens captadas do lado oposto. Na prática é como se fossem transparentes, para passarem despercebidos aos olhos dos humanos.

      Sabem também que os humanos, além de sensíveis à radiação eletromagnéticas no intervalo entre 0.38 e 0.74 micrômetros, conseguem detectar pequeníssimas variações na composição do ar que respiram, e são também sensíveis a pequenas flutuações na pressão atmosférica, com frequência entre 30 Hz e 18 kHz – de fato usam esse fenômeno como uma forma primitiva de comunicação, o emissor produzindo essas vibrações usando umas pregas de pele no início do tubo respiratório e o receptor detectando as vibrações com órgãos colocados de um e outro lado da cabeça.

      O grupo observado pouco passa de duas dezenas, com machos, fêmeas e algumas crias. Têm uma fogueira acesa, o que provoca a curiosidade da maior parte dos sensomóveis, que passados alguns nanosegundos obtêm dos bancos de dados informação sobre a reação química entre a madeira e o oxigênio do ar, e que os humanos usam o fogo para manter a sua temperatura corporal quando a temperatura do ar é baixa, como à noite, para preparar os cadáveres de outros animais para comer – esta operação é também observada com manifesta curiosidade – e para manter à distância os predadores – para algumas das unidades, as noções de predador / presa têm também de ser pesquisadas.

      Alguns dos sensomóveis, providos de analisadores cromatográficos, extraem amostras do ar e identificam moléculas orgânicas complexas, provavelmente com origem nos corpos dos animais colocados sobre as chamas da fogueira.

      Aproximam-se lentamente, apreciando a interação entre os humanos. Uma fêmea que parece ser a mais velha do grupo – os sinais de envelhecimento, tais como pele enrugada e brancura do cabelo  constam dos bancos de dados – pega no cadáver do que parece ter sido um pequeno quadrúpede, cuja superfície ficou enegrecida pela permanência sobre a fogueira, e arranca pedaços que distribui à volta. Primeiro aos machos, depois às fêmeas, finalmente às crias, que aceitam o seu pedaço com guinchos de alegria. Um segundo animal é partilhado de forma semelhante.

      Agora a mesma fêmea pega num pedaço de comida e desloca-se para fora do grupo principal. Vai ao encontro de um macho que está sentado no chão, tendo na sua frente um conjunto de pedrinhas, pequenos seixos, que observa com muita atenção. De vez em quando muda um seixo de posição e torna a observar atentamente o conjunto. Quando a fêmea chega junto dele com a comida, afasta-a com um gesto brusco e um som gutural. A fêmea hesita, encolhe os ombros, pousa o pedaço que trazia no chão ao lado do macho e regressa ao grupo principal junto à fogueira. O homem continua a manipular as suas pedrinhas e parece aos observadores que aquilo a que assistem é o surgir de alguma forma de pensamento abstrato. Mas de súbito pega em duas ou três pedras e atira-as para longe, levanta-se e espalha as restantes com os pés, emitindo guinchos. Pega na comida que a mulher deixou no chão, e começa a comê-la em grandes dentadas, dirigindo-se para junto do grupo.

      Nesse momento, um dos sensomóveis, procurando um ponto de observação mais vantajoso, pisa um ramo seco. Com o estalido, os humanos ficam imediatamente em estado de alerta. Fêmeas e crias  agrupam-se junto da fogueira, e algumas das fêmeas pegam em ramos a arder que seguram à sua frente, numa atitude de defesa. Os machos formam uma linha mais avançada, a boca aberta mostrando os dentes, um som grave saindo das gargantas. O macho mais corpulento, que parece ser o líder do grupo, olha na direção de onde veio o ruído, agarra numa pedra do chão e atira-a. Embora não possa ver os sensomóveis, a pedra passa a centímetros do que originou o ruído. Mais humanos começam a agarrar pedras e Turing dá ordem às unidades para retirar.

      Quando a unidade voadora, com os sensomóveis todos já no interior, levanta voo, é Turing que pergunta à rede: "Ainda alguém pensa que estes seres primitivos possam ter criado algo tão complexo e sofisticado como nós?" e quase não precisa de se certificar que a resposta é negativa.

* * *

      A expedição à Reserva já terminou há algumas horas. Turing fecha os canais de comunicação, mantendo apenas abertos os de monitorização, desativa todas as unidades móveis que desempenham diversas tarefas no edifício onde reside, exceto Jeeves, com quem comunica sempre em modo protegido.

      Jeeves desloca-se até à parede do fundo, junto de um armário que desliza, revelando uma abertura. Entra nessa abertura, que não é mais do que a caixa de um elevador, e começa a descer, enquanto o armário regressa à posição normal. Sete pisos abaixo do de partida, o elevador pára. Jeeves desloca-se ao longo de um corredor e entra numa sala, onde existem painéis cheios de botões e alavancas, monitores, e o que resta de quatro humanos, esqueletos dentro de roupas que alguém do século 21 identificaria sem dificuldade como sendo uniformes militares.

      Jeeves atravessa a sala de comando, tendo o cuidado de não tocar nos restos humanos, e sai por uma porta na parede oposta, que dá para outra sala onde se encontra diversa aparelhagem eletrônica e cujas paredes estão cobertas de armários com gavetas. Vai direito a uma delas, abre-a, tira de dentro um pequeno disco de reflexos metálicos, dirige-se a um dos aparelhos, um dos seus manipuladores carrega num botão, depois noutro, e uma placa surge de dentro do aparelho, onde Jeeves coloca o pequeno disco prateado. Carrega noutro botão, a placa recolhe e no monitor por cima do aparelho começa a passar um filme.

      Turing poderia ter gravado há muito estas imagens e visualizá-las sempre que lhe apetecesse, mas dá-lhe gozo este pequeno ritual de enviar Jeeves pôr o leitor de DVD a funcionar.

      O filme mostra uma equipe de humanos frente a um écran que ocupa a maior parte de uma parede, um deles fala para uma microfone, o que ele diz aparece escrito no écran, e surge uma voz off que responde, e a resposta aparece também transcrita, agora o filme mostra outros humanos, estes estão vestidos de branco e com toucas na cabeça, e trabalham em volta de um complexo de caixas onde ligam e desligam fios, lêem valores em pequenos monitores que transportam consigo, e aquilo a que Turing assiste é ao seu próprio nascimento, o nascimento da primeira Inteligência Artificial, e quando os humanos verificam que a unidade passou o teste de Turing há uma explosão de alegria, e alguém traz champanhe e bebem, e um deles pergunta: "E como lhe vamos chamar?" e o chefe do projeto responde "Turing, claro!".

      Termina o filme, Jeeves retira o DVD do leitor, arruma-o na mesma gaveta, atravessa novamente a sala de comando, contornando cuidadosamente os restos dos corpos que ali se encontram há mais de um século, e regressa junto de Turing. Este reativa as unidades desativadas, e foca de novo a maior parte da sua atenção na sonda cuja construção continua em órbita.

      E numa das linhas paralelas em que o seu pensamento se desenrola, questiona-se: será que também nesses mundos longínquos onde, está convicto, existem seres semelhantes a si próprio, será que também aí a vida baseada no silício teve necessidade, para emergir, da ascensão e declínio da vida baseada no carbono?

 

 



 


 Nota do Administrador: De acordo com o autor, palavras no texto original, em termos ortográficos da Língua Portuguesa do outro lado do Atlântico, foram adaptadas para o Português escrito no Brasil.

 

João Ventura começou a escrever na adolescência, como muito boa gente, tendo visto alguma coisa (sobretudo poesia) publicada nos suplementos juvenis do Diário de Lisboa e República, de saudosa memória. Quando passou alguns anos fora do país voltou a escrever, talvez como reação ao fato de ter de viver o quotidiano numa língua estrangeira.

Saltando por cima da presença em alguns concursos ( por vezes premiado, outras não...), a fase mais recente da sua escrita tem início quando há alguns anos conheceu o “pessoal da FC”, de que não cita nomes para não correr o risco de se esquecer de alguém. São eles que através dos sites, blogues e fanzines que editam, dos concursos e desafios que promovem, têm fornecido o estímulo para uma escrita com alguma continuidade.

Como gosta das palavras, criou na blogosfera um espaço para elas, que naturalmente se chama “Das palavras o espaço”, onde vai colocando textos com uma certa irregularidade. - ( Nota do Administrador: este perfil foi transcrito do site SAIDA DE EMERGÊNCIA ).

Blog do Autor:

“Das palavras o espaço”

 

Comentários   

#4 Eduardo Macedo » 26-04-2013 00:00

muito interessante :lol:
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Eduardo Macedo

#3 João Ventura » 19-03-2013 11:35

David e Luciano
Obrigado pelos comentários.
Sds.
JV
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João Ventura

#2 Luciano Silva Vieira » 14-03-2013 23:32

Um conto muito bom! Gostei de ver a FC escrita na nossa querida língua, mas sob um de vista vindo do outro lado do Atlântico. Eu só concordo com o David, apesar de sentir um pouco de medo de máquinas inteligentes eu ainda acho que no futuro faremos algum tipo de simbiose com elas, algo do tipo relatado por Isaac Azimov em seu conto "A Última Pergunta". Mas eu só tenho que lhe dar os parabéns ao autor e expressar meu desejo de ver mais contos da Terrinha por aqui.
0 +−

Luciano Silva Vieira

#1 David Machado Santos » 12-03-2013 14:43

Muito interessante, e dá o que pensar por meses!

Mas ainda prefiro uma visão mais otimista da inteligência artificial: ao invés da "inteligência natural" precisar regredir para dar lugar ao novo tipo de consciência, me sinto mais confortável imaginando alguma dorma de fusão entre elas capaz de perpetuar a inteligência original numa extensão que nunca se imaginaria possível antes se ela parasse em bases puramente orgânicas...
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David Machado Santos

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