O que nos torna robôs?

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O QUE NOS TORNA ROBÔS?

Escrito por Brian Oliveira Lancaster

 

 

    Tudo começou com um simples código de programação. Em pouco tempo já havia microchips. Mais alguns anos e estes mesmos microchips começaram a ganhar a capacidade de controlar artefatos desenvolvidos especificamente para eles. A evolução era notável até que o homem, após um intenso período de saltos tecnológicos, conseguiu finalmente criar “algo” à sua imagem e semelhança: os robôs.

Ainda no ano de 2012 já existiam máquinas que conseguiam imitar perfeitamente as expressões humanas; inclusive algumas até eram responsáveis pela recepção e palestras em eventos de tecnologia. Se não fosse por sua expressão corporal, conseguiriam “enganar” perfeitamente qualquer ser humano. Mesmo com todos os avanços significativos, o homem conseguia distinguir inúmeras expressões faciais que os cientistas da área da robótica (“roboticistas”) não conseguiam reproduzir. O cérebro humano fora criado para distinguir infinitas formas de contato e era complexo demais para ser reproduzido.

No ano de 2015 as expressões corporais estavam quase perfeitas, devido à evolução dos já conhecidos aparelhos de captura de movimentos. O robô cumpria perfeitamente sua programação, mas ainda faltava algo. Algo que era inerente ao ser humano. Inclusive, sem ele, o ser humano era considerado um robô - o que não deixava de ser uma ironia.
Faltava-lhes sentimento.

Isaac era o mais avançado de sua “espécie”. Era estranho referir-se a um robô como espécie, mas fazia apenas dois anos que a nomenclatura “código de fabricação” ou “tipo” havia caído em desuso. Seu nome era uma homenagem a um famoso escritor de ficção científica. Isaac era um protótipo avançado da próxima geração. Apesar de ser uma tarefa quase impossível, sua principal função era conviver com os seres humanos e, em um futuro próximo, aprender a desenvolver sentimentos.

Isaac fora “adotado” pelo roboticista Wong Fei. No início fora relativamente estranho para ele adaptar-se a um lar comum. Mas Wong era bem paciente e procurava explicar em detalhes cada movimento necessário no dia a dia. Com o tempo Isaac já auxiliava nas tarefas domésticas. Mas ainda não havia traços de sentimentos em sua programação. Mesmo assim, Wong apegou-se a ele e gostava de tê-lo por perto. Costumava chamá-lo para assistir filmes, seriados e documentários. No final, ele era capaz de tecer alguns comentários. Mas tudo isso iniciava com uma ordem; não era de sua própria iniciativa.

— Isaac, venha cá e veja este filme comigo! E preste bem atenção, pois quero que você me diga o que achou após o final!

Ordens cumpridas. Objetivo alcançado. Eram as palavras que surgiam no cérebro do robô. Após um tempo Wong começou a levá-lo ao parque, onde poderia ver mais de perto como era o comportamento humano. Sua expressão não mudava, mas era possível notar que o robô arquivava tudo o que assistia durante o dia. Provavelmente iria repassar o filme em sua “mente” enquanto o roboticista descansava.

Até que, em certa noite, após inúmeras horas de gravação de crianças brincando no parque, um conjunto de equações se formou em seus circuitos internos e encontrou uma inconsistência em sua programação. Wong foi acordado no meio da noite por uma leve mão robótica que insistia em mexer em seu ombro. Assim que acordou, o robô falou em tom normal (afinal, já fazia muito tempo que as vozes robóticas haviam sido substituídas):

— Senhor Wong Fei. Encontrei uma inconsistência e gostaria de seu auxílio para solucioná-la o mais breve possível. A questão é: tenho inúmeras horas de vídeo gravadas em meu banco de dados que mostram claramente que aquelas crianças estão alterando seu “molde” milímetro por milímetro, a cada dia. Por que meu corpo não faz o mesmo?

Aquela (mesmo que estranha) era a primeira questão existencial que um robô já ousara fazer. Wong procurou rapidamente o gravador e solicitou que ele repetisse a pergunta.

No dia seguinte, após assimilar as incompreensíveis respostas do roboticista, procurou analisar maiores detalhes daqueles curiosos seres. Olhou para as crianças jogando basquete, olhou para suas mãos, olhou para seus dedos. Sua mão era semelhante, mas parecia faltar algo. Para que a equação estivesse completa, era necessário muito mais do que uma explicação. Levantou por conta própria e foi até elas.

A bola escapou e bateu em seu corpo metálico. As crianças ficaram curiosas. Tentando imitar o comportamento delas, juntou a bola e jogou de volta. Esqueceu-se de calcular a força entre o envio, o recebimento e a massa receptora. Resultado? Acidente. Crianças chorando. Mães em desespero. Wong correu para explicar, mas recebeu apenas uma resposta, prontamente arquivada em sua mente:

— Saia daqui. Você e seu... Sua... Aberração!

Se o robô possuísse sentimentos, estaria ofendido. Apenas gravou a mensagem e pesquisou o contexto. Entendeu que nem todos os seres humanos estavam acostumados a uma forma de vida como ele. O caso foi esquecido rapidamente assim que o governo entrou em contato com o roboticista e a mãe da criança ganhou uma indenização. O robô aprendeu que dinheiro “resolvia tudo” para os humanos. Não era esta a intenção, mas por mais que Wong tentasse argumentar, a informação fora arquivada desta forma.

Mal sabiam que, naquele dia, um fotógrafo amador estivera registrando toda a cena. Tão logo conseguiu o que desejava, retirou-se dali sorrateiramente. Mais à frente, em um beco deserto, um carro de luxo parou e recebeu a mercadoria em mãos, retirando um bolo de notas guardado em uma maleta fechada. O que era para ser um segredo estava prestes a se tornar público. Ou pior, o projeto seria copiado. Mas não era bem esta a intenção dos compradores.

No dia seguinte, um estranho carro luxuoso parou em frente à casa de Wong Fei. Desceram três homens vestidos com casacos pesados e crachás reluzentes. A campainha tocou. O robô atendeu.

— Aqui é a residência do Sr. Wong. O que desejam?
— Ele se encontra? É um assunto de seu interesse.
— Irei chamá-lo.

O robô se virou. Wong apareceu. E a tragédia tomou forma. O robô ouviu um disparo vindo de suas costas. Em seguida, um dos homens puxou-o pelo ombro e solicitou que ele segurasse a arma. Era uma ordem. Não hesitou. Os homens saíram correndo em direção ao carro para desaparecer logo em seguida. O robô percebeu que algo havia acontecido com seu tutor. Agachou-se, tocou no ferimento e imediatamente seu protocolo de segurança entrou em ação. Era necessário chamar uma ambulância. Tarefa simples e fácil... Para um humano.

— Alô? É do Hospital Amano?
— Sim, em que podemos ajudá-lo?
— Meu criador está vazando hemoglobinas e aparenta estar perdendo energia. O nível de oxigênio não está normal. Seu banco de dados pode falhar a qualquer momento.
— Senhor, se isto for um trote, eu irei chamar a polícia. Nós temos todos os registros das chamadas gravados aqui. Isto é uma brincadeira?
— Não.
— Então?
— Seus sinais vitais estão cedendo espaço para um curto-circuito que gerará um desligamento completo dos sistemas.
— Eu vou desligar! A polícia já vai aí!
— Não. Eu preciso de uma ambulância e médicos para reparos em seus circuitos!
— ... (tu-tu-tu-tu).

Wong, mesmo perdendo suas forças, não deixou de chamá-lo e sussurrar em seu ouvido:

— Saia... Daqui... Agora mesmo. Ache... Um lugar... E se esconda. Isto é uma ordem, Isaac. Ficarei bem, não... Se preocupe.

A policia chegou. Imediatamente chamaram uma ambulância. Encontraram no local apenas uma arma com estranhas digitais e manchas de mercúrio na camisa do roboticista. O telefone estava pendurado. Discaram novamente o último número para obter informações. Foi aí que descobriram que uma pessoa ligou para lá e disse coisas estranhas. Um mandado de busca e apreensão foi emitido em nome da única pessoa que estava presente no momento do crime: Isaac. Conforme já mencionado, passaria despercebido por entre as pessoas – o que, ironicamente, tornava a fuga mais difícil.

Quase um paradoxo. Se ele fosse menos “humano” talvez não tivesse este problema. Engraçado que, no código fonte, aquela acusação disparou um teste de lógica em sua mente, que passou a rodar scripts enquanto fugia. Era um claro erro de lógica, mas devido ao mandado, ele passou a ser considerado um humano. Não era a intenção ser considerado perigoso, mas a memória daquele dia no parque veio à tona. Chegou à conclusão de que o ser humano nunca considerou dividir o “seu” espaço com outra espécie. Eles não admitiriam isso, mesmo que uns poucos fossem favoráveis à sua causa. Estava perdido, estava sozinho e a única pessoa que conhecia estava “desligada” para sempre.

(...)

Sem um parâmetro definido e sem um acompanhamento psicológico, a programação lógica tomou conta dos outros “departamentos” e uma diretiva foi reforçada em detrimento de outras: seu objetivo era tornar-se humano. Se ele era somente reconhecido quando fazia coisas contrárias á sua programação, isto passou a ser prioridade.

Fez todas as coisas erradas possíveis, enquanto era procurado por inúmeras agências. Desde roubos a bancos até domínio sobre territórios. Tudo para tornar-se mais “humano”. E estava conseguindo, apenas não sabia que havia se tornado membro da classe dos “maus elementos da sociedade”. Mas como sua noção de bom e mau era distorcida, não sentia remorsos e nem compreendia por que deveria sentir isto. Tornou-se um elemento respeitado em seus territórios. Ficou conhecido pelo apelido “Ex Machina”, sem o “Deus” que geralmente acompanha esta expressão.

Mas tudo que um dia tivera início teria um fim. Em seu caso, o ciclo da programação.

(...)

Seu nome era Emily. Uma quase adolescente, bonita, inteligente, que apareceu em seus domínios após uma catástrofe ter atingido sua família. A primeira vez que ela apareceu, sabia que não sobreviveria sozinha. A lógica dizia que o quanto antes ela “desaparecesse”, menos ela sofreria. Não sabia bem o motivo, mas vários mecanismos demonstravam conflitos cada vez que pensava nisso.

O dia em que ela realmente se encontrou face a face com ele, Isaac já havia tomado sua decisão. Avaliou as equações, as probabilidades e os imprevistos.

A arma estava em sua mão quando Emily apareceu. Ela não tinha medo. Era o primeiro ser humano que o desafiava dessa forma - friamente. Questionou o motivo de sua coragem. A resposta fez com que o robô largasse imediatamente sua arma. Seu pai havia morrido após desconhecidos o enfrentarem por uma simples disputa de território comercial e tecnológico.

Seus circuitos lógicos adicionaram uma nova resposta a uma velha equação.

— Eu... Cometi muitos erros. Eu sou... Imperfeito. Finalmente entendi o que os torna humanos. Seus sentimentos conflitantes e incontroláveis, como uma variável que não se encaixa na equação. Eu sou esta variável. Mas ainda há tempo de corrigir isto. Não serei mais o único...

Juntou sua arma e apontou para si mesmo.

— Único? O que o torna tão especial? Pois fique sabendo que eu também sou única e graças a você. Você quer saber o que é ser um humano? Ser um humano é estar com vontade de realmente deixar você atirar em si mesmo e mesmo assim não deixar de ter esperanças. Ser um humano é perdoar. Ser um humano é enxergar além do próprio umbigo e acreditar que um dia poderemos fazer um mundo melhor. Ser um humano é acreditar em todas estas besteiras que servem apenas como “frase de efeito” e realmente fazer alguma coisa. Ser um humano é ter sentimentos conflitantes dentro de si e saber escolher o que realmente quer demonstrar.

Chorou.

— Ah, e tem mais! Neste exato momento, a empresa Evolutech está encerrando a produção em massa de sua espécie. Se todos eles nascerem igual a você, estaremos perdidos. Então é minha obrigação ensiná-lo a fazer as coisas direito!
— Como você sabe tanto a meu respeito?
— Meu pai o construiu. E morreu por você. É assim que o agradece?
— Emily... Eu fui programado assim. Desculpe-me.
— Não foi!
— Como pode ter tanta certeza?
— Por que você é meu irmão!

(...)

Em 2025, os modelos Emily começaram a ser produzidos em grande escala e possuíam uma cláusula de contrato curiosa: não poderia ser vendida separada do modelo Isaac. Quem comprava um, deveria levar os dois, ou a venda seria cancelada. Os modelos Emily passaram a ser conhecidos como modelos sensitivos e os Isaac como modelos lógicos. Juntos se complementavam e criavam uma delicada coesão entre princípios, lógica, razão e sentimentos...

Se os roboticistas da época soubessem que seu erro era tê-lo feito único, teriam evitado inúmeros problemas. Mas ainda havia muito a aprender. Ao contrário dos humanos, os robôs formavam uma sociedade coletiva. E era isso que nenhum robô conseguia entender. O que nos torna humanos é a individualidade, o livre-arbítrio em conjunto com os sentimentos.

(...)

Em 2030 surgiu um novo modelo denominado Sirius, que fez a primeira pergunta consciente de sua própria existência e o espaço que ocupava na sociedade humana:

— O que nos torna robôs?

Mas esta já é outra história...

 


 

Este texto foi baseado nos personagens do livro de contos “Histórias de Alexandre”, de Graciliano Ramos, publicado em 1944. Fazendo referências às histórias coletadas do folclore alagoano, o escritor Graciliano Ramos reuniu neste livro contos e fanfarronices de Alexandre, um típico mentiroso do sertão, e a sua esposa Cesárea, que validava os exageros do marido. Neste conto fiz uso dos personagens e suas relações de amizade. A narrativa em questão nada tem a ver com o folclore alagoano, e esclareço que, apesar de fazer referência ao “cramulhão da garrafa”, me distancio bastante da lenda trazida para o Brasil, oriunda do folclore português, do qual se contava que São Cipriano ensinava como se criar um diabinho dentro de uma garrafa.
Afonso Luiz Pereira



Seu Alexandre e o causo do Negro Damião

    — Meus amigos, esse causo que eu vou escorrer agora é um dos poucos que aconteceu comigo antes de me casar com Cesárea. Pra dizer bem a verdade, nunca contei a ninguém. Vossemecês, então, terão de confiar somente nas minhas memórias. E aí, o seu Firmino, que tem a pachorra de botar dúvida nas minhas conversas, há de ter fé na minha palavra porque é como eu sempre digo: eu moro nesta ribeira há um bando de anos e sou homem traquejado nestas andanças do sertão. Já passei por poucas e boas, viu? Não carece de um cabra feito eu sair por aí inventando desconchavos! Detesto exageros! Só digo o que ocorreu, nem mais nem menos. O povo daqui me conhece bem.
    — Ora, seu Alexandre, não se aperreie com um velho cego como eu, viu? Não é por querer que lhe apoquento os nervos, não! Apenas fico matutando, curioso que nem coruja, as “novidades” que aparecem nos causos afamados do senhor.
    — Seu Libório, me diga lá, do que é, diacho, que o cego preto Firmino está falando?
    — Sei não, seu Alexandre. Só sei que o senhor é um bicho de contar estórias e a palavra do senhor vale mais que mil patacões de ouro. Eita, se vale!
    — Seu Firmino, o que o senhor está querendo destampar?
    — Nada não, seu Alexandre. Perdoe a rabugice de um velho cego. Sou turrão de nascença. É a idade, seu Alexandre. Perdoa, é a idade!
    — Capaz que seja mesmo! Cesárea, vossemecê se lembra do aparecimento do Diabo lá nas terras do coronel Idelfonso?
    — Claro que me lembro, Xandu!
    — Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, seu Alexandre, o senhor viu o cão de perto, é?
    — Vi, sim, seu Libório. Não foi com este olho torto, que melhor ficou depois que eu o perdi no espinheiro, quando me aboletei no lombo daquela onça, porque o caso da onça lazarenta aconteceu uns tantos anos depois,  mas vi, sim! O próprio capeta em pessoa!
    — Nossa senhora, meu padrinho, cruz credo!
    — É isso mesmo, Das Dores! Vossemecê pode fazer o sinal da cruz mais uma vez aí, porque é a mais sacrossanta verdade. Cesária, me traga lá o meu rolo de fumo porque hoje eu não estou enfastiado. Acho que os meus amigos vão querer ouvir esta estória, não é não, seu Libório?
    — Claro, é capaz que daí venha boa cantoria.
    — Ora muito bem. Isso se deu lá nos idos da minha mocidade, quando eu ainda era um cabra desconhecido por estas redondezas, antes até de me enfiar nas vaquejadas, casar com a Cesárea e fazer muito dinheiro. Naquele tempo, eu, galo novo, tinha pouco juízo e entrei no bando de Virgulino Ferreira, daí...
— Seu Alexandre, Vossemecê não me leve a mal não, sem querer ofender... já lhe conheço e escuto suas estórias há muito tempo, mas jamais ouvi nas conversas do povo, e do senhor também, que o amigo lá tenha tido presença no bando de Lampião, então...
— Seu Firmino, criatura de Deus, o Xandu não faz gosto de falar sobre esta passagem da vida dele não, viu? Meu marido é um santo. Vê-se logo que o amigo não é traquejado nos deslizes da juventude. Pois lhe adianto que se ele abre o coração pra vossemecês em contar coisas de segredo, que lhe é do particular, é porque ele gosta muito e respeita as pessoas que entram por aquela porta para lhe fazer ouvidos nos causos que conta. Escuta quem quer!
    — Ôxe, dona Cesária, desculpe aí o mal jeito. Não quis trazer ofensa ao seu Alexandre, é que...
    — Firmino, homem de Deus, tome tento. O meu compadre é cabra sério! Não gosta de falar do passado no cangaço.
    — É verdade, seu Libório. É verdade! Como disse a minha Cesária, não faço gosto de prosear estas coisas. Quem nunca teve pecado, que atire a primeira pedra. E tem mais! Agora, já me aperreei de novo com o seu Firmino, que é cego e quer enxergar mais longe do que a gente que tem a vista boa. Assim não dá!
— Oxente, peço, mais uma vez, o perdão. Não quero fazer desfeita na casa do amigo.
— Pois já fez, seu Firmino, pois já fez. O senhor está achando, por acaso, que eu sou um mentiroso de marca?
— Arre égua, seu Alexandre! Não. Deus me livre e guarde!
— Não, meu padrinho. Não fique aperreado não. É que o seu Firmino, por ser cego, não sabe se expressar no seu falar. É isso! Não é isso não, seu Firmino?
— É verdade, Das Dores, é verdade!
— Continue o causo, padrinho.
— Não continuo não! Agora já me arreliei.
— Seu Alexandre, perdoa aí, vai homem? Se o amigo não me perdoar, vou ficar numa gastura sem tamanho.
— Pois será bem feito. Eita criatura pra me tirar o prumo!
    — Perdoa a desfeita do seu Firmino , meu padrinho, o homem é cego!
    — Xandu, meu bem, deixe de melindres e conta logo o causo.
    — Olha aqui, seu Firmino, o senhor acredita que o diabo existe? Hein...? Não adianta vossemecê ficar fazendo esta cara de empalamado não. Estou muito arreliado com o senhor e, se o amigo tem dúvida que o capeta existe, eu tenho como provar. Não tenho não, Cesária?
    — Tem sim, Xandu.
    — Valha-me nosso Senhor Jesus Cristo, mas como?
    — Não tenha medo, seu Libório. E fique calma, Das Dores, que o teu padrinho sabe o que está fazendo. Tenho o capeta preso dentro de uma garrafa, viu, seu Firmino? É o que lhe digo. Prendi o cramulhão nela quando topei com o maldito. O senhor duvida?
    — ...não... não... não duvido...
    — Pois é. O senhor está aí se cagando de medo porque sabe que não sou cabra de contar lorotas. E vou lhe dizer mais uma coisa: o diabo quando vem na terra é pelo corpo dos outros. Ele só ganha este mundo é no corpo da gente, ele entra na gente, comanda a nossa cabeça, fica poderoso no corpo da gente, porque fora do nosso espinhaço a criatura é que nem vento leso das manhãs na caatinga, vai daqui, vai de acolá, mas tem pouco préstimo pra fazer medo, viu? O diabo tem que entrar no couro do cabra, na nossa carne, esgaravatar os nossos miolos. Daí, sim! Ele fica poderoso e apronta das suas.
— É mesmo, seu Alexandre?
— Pois eu lhe digo, seu Libório. É assim mesmo.
— Bom... me perdoem a desfeita. De minha parte, desculpas eu já pedi, mas já que o amigo se arreliou comigo e não quer mais contar o causo, vou-me embora. É tarde da noite e a caminhada é longa, eu...
— Não senhor, seu Firmino. Agora é que o senhor vai ficar. Vossemecê tome assento aí em qualquer canto, porque o amigo vai ter que  ouvir o causo da vez que topei com o Diabo. Ah, vai sim! Dou um boi pra não entrar numa encrenca, mas dou uma boiada pra não sair. Não quero que vossemecê saia por aí espalhando pelos quatros cantos do mundo que eu sou um mentiroso de marca. Topei com o Diabo, prendi o pôrquera numa garrafa, eu vou provar. Ah, se vou!
— É isso mesmo, Xandu!
— Boa, meu padrinho, solte o bode.
— Mas claro que vou soltar o bode.
— Senta aí, seu Firmino. O compadre Alexandre vai contar o causo e faz questão que o senhor ouça. Depois eu lhe acompanho até a sua casa.
— É justo. Estou curioso também.
— Hum... ora muito bem. Como estava dizendo, quando moço, eu furava o sertão pra cima e pra baixo no bando de Lampião. Foi um tempo que não faço gosto de lembrar. Virgulino Ferreira era um cabra da peste, macho que só, e disso ninguém há de duvidar, mas eu lhes digo que quando o negócio era enfrentar as coisas do além, o homem se cagava de medo. Muito bem. Como sabem, Lampião tinha uns combinados lá dele com alguns coronéis do sertão. Um deles era o coronel Idelfonso, do Engenho da Pedra Torta. Numa noite quente dos infernos, o coronel Idelfonso apareceu no acampamento querendo favor de Virgulino. Dizia ele a Lampião que Dona Emerenciana, sua esposa, estava com um quebranto forte, trabalho de sustância da mandinga dos negros alforriados. O velho Idelfonso, então, nos segredou que Dona Emerenciana havia se apaixonado por um negro de nome Damião. Ora pois, o coronel não deu nem tempo do tal de Damião se explicar e mandou açoitar o infeliz até a morte. Dizem que, enquanto o chicote lhe comia o couro, o negro berrava dentro da noite dizendo que a culpa não era dele, que era coisa do capeta, que o diabo tinha, no corpo dele, enfeitiçado a sinhá e dela se fartara aos beiços e outras coisas mais. O coronel só foi acreditar no negro quando este, às portas da morte, revirou os olhos, mudou a voz e gargalhou dizendo que sinhá Emerenciana tinha gostado, e que ela seria dele para sempre.
— Nossa senhora, meu padrinho, que coisa! Coitado do negro Damião!
— Pois é, Das Dores, naquele tempo o negro que não se botasse no lugar dele, era corrigido à força do chicote, viu seu Firmino?
— Eu acredito.
— O coronel mandou enterrar o negro Damião longe do engenho, em meio à caatinga. E daquela noite em diante, o velho Idelfonso não teve mais sossego porque dona Emerenciana, desconjuntada das ideias, deu pra perambular desembestada, toda noite, à procura do corpo do negro açoitado, morto e enterrado. Todos no engenho cuidavam para que a sinhá não arredasse pé pra muito longe, mas numa noite, depois de quase um mês do ocorrido, ela escafedeu-se no meio da caatinga. Vixe, foi um pandemônio! E procura daqui e procura de lá, até que o coronel matutou muito bem que a esposa, por obra de feitiço maligno, tinha mandado as canelas atrás do corpo de Damião. O coronel mandou chamar o velho Jeremias, outro negro desaforado, Deus que me perdoe, pedindo-lhe conselho de como fazer procedimento e ele, homem vivido, disse que Damião deveria ser desenterrado e queimado, pois enquanto houvesse corpo o Diabo tinha poder sobre sinhá Emerenciana. Só que nenhum homem do engenho, fosse preto ou fosse branco, queria meter as fuças na cova do endemoniado, nem o próprio Idelfonso, que era cagão que só. Então, o velho veio ter com Virgulino pra interceder por ele.
— E Lampião, cabra macho, orgulho do cangaço, decerto tomou questão e foi pras terras do Idelfonso.
— Qual o quê, seu Libório! Qual o quê! Em questão de assombramento e coisas do além, como já disse, Virgulino Ferreira era outro cagão de marca. E antes que ele fizesse vergonha ao bando, dando desculpas sem cabimento, eu olhei pra ele, cabra macho que sempre fui, e disse: “Lampião, deixa comigo que eu faço o serviço. Trago Dona Emerenciana pra casa e queimo os restos mortais do negro no meio da caatinga. Deixa comigo!” E, depois de assuntar bem o local da cova com o coronel Idelfonso, lá me botei na cavalgadura em rumo às terras do engenho da Pedra Torta
— O senhor foi sozinho, meu padrinho?
— Sim, fui sozinho... quer dizer... sozinho, sozinho, não, viu? Porque fui eu e mais nosso Senhor Jesus Cristo, na retaguarda.
— E o senhor encontrou a Dona Emerenciana, compadre?
— Sim, seu Libório, encontrei. E a criatura dava pena de olhar, sabe? Depois de cavalgar por mais de uma hora eu achei a pobre da Dona Emerenciana cavoucando o solo bem no meio do mato rasteiro da caatinga. Era uma noite de lua cheia, bem fornida pro caboclo se incomodar com o lobisomem no cangote, bicho que também não me faz medo. A coitada, com o vestido todo rasgado, estava com os peitos de fora, e não me perguntem o porquê da sem-vergonhice, que pra isso não tenho resposta não. Ela já tinha aberto a cova com as mãos e puxado o defunto pra cima. Era uma cena tão medonha de ver que até hoje, depois deste tempo todo, me azeda o dia e me provoca uma gastura no estômago. Então, apeei do meu cavalo, puxei a peixeira e me encaminhei pra conferir o negócio mais de perto.
— Oxente, meu padrinho, o senhor não ficou com medo não? Não ficou leso das pernas, não deu tremedeira?
— Qual o quê, Das Dores. Quem sai na chuva é pra se molhar.
— Meu Xandu sempre foi cabra de coragem. Dá gosto de vê ele contar estas bravuras dele.
— Quando cheguei perto dos restos mortais do negro, fiquei assombrado com o que vi. Tenho pra mim que os homens do coronel enterraram o Damião em cima de um formigueiro porque do defunto as carnes apodrecidas se tinham ido há muito, pois que só vi o esqueleto do infeliz. É verdade. E dona Emerenciana abraçada naquele monte de ossos. Só podia ser coisa do demônio mesmo, só se vendo! E, olha, meus amigos, que ele não se custou muito a aparecer. De repente, aquela ossarada toda começou a se tremer que nem folha de bananeira em vento de trovoada. Dei um pulo pra trás, de peixeira na prontidão, porque do meio do esqueleto enfumaçou-se uma criatura do inferno meio esverdeada, que parecia um enorme cachorro com uma bocarra infestada de dentões de todos os tipos e tamanhos, os olhos chispavam o fogo do inferno, e duas enormes garras, parecidas com as de um lobisomem, ousaram me fazer frente! Parti desembestado pra cima do diabo, cutucando a peixeira por tudo quanto foi lugar, mas não consegui furá-lo de jeito nenhum porque como se pode furar uma criatura feita de fumaça? Aí, meus amigos, é que atinei com os pensamentos certos: o diabo só podia causar estrago quando entrasse no corpo de alguém. Foi por isso que ele ora olhava pra mim, ora olhava pra Dona Emerenciana, decerto matutando lá na cachola dele qual de nós dois lhe era de maior serventia tomar posse. Mas o que o Coisa-ruim não contava era com a minha astúcia. Antes do capeta se decidir o que fazer da vida, abri a boca e dei um bote pra cima dele.
— Louvado seja nosso Senhor Jesus, seu Alexandre, o senhor teve a coragem de morder o satanás?
— Que nada, seu Libório. O que eu fiz foi o seguinte: puxei todo o ar em volta do excomungado, uma puxada forte de ar, sabe? Igual quando a gente puxa fôlego pra acender cigarro de palha com fumo de má qualidade e... e... O que foi, seu Firmino? Por que está aí, o senhor, com esta cara de empalamado, de incrédulo? Ora, eu era um cabra novo, homem! Não tinha os pulmões catarrentos de hoje, não. E foi uma puxada só, viu? Enchi a boca daquele fumaceiro dos infernos e antes que o capeta fizesse graça de se escarafunchar por minha goela abaixo, soprei o infeliz dentro de uma garrafa que levava à cintura pra matar a sede. Assim que tampei a garrafa, a Dona Emerenciana esbugalhou os olhos e entrou num berreiro que Deus nos acuda. “Onde é que eu estou? Onde é que eu estou? Quem é Vossemecê?” E ela foi gritando, e ela foi chorando, e foi me enchendo de perguntas, e foi tampando aqueles peitos desavergonhados. Bom, pra encurtar a estória, levei a pobre pra casa grande do engenho e a devolvi ao velho Idelfonso, que Deus o tenha.
— Nossa Senhora, meu padrinho, o senhor é um herói!
— Eita compadre corajoso, sô!
— O Xandu é homem valente, desses que não se criam mais no mundo de hoje em dia!
— Mas... seu Alexandre, o senhor não me leve a mal...
— Arre égua, Seu Firmino, o que foi agora?
— Bom, é que estou aqui encafifado com uma coisa que ainda não atinei bem dentro das minhas idéias.
— Pois me diga lá o que lhe causa gastura.
— O senhor há pouco dizia que o capeta só podia fazer morada no corpo da gente, não é não?
— Sim, é isso mesmo que eu falei.
— Então, como é que o cramulhão estava de pouso no corpo apodrecido do Damião, se corpo não havia? O pobre só estava no esqueleto... não é isso?
— Ah, não... mas era só o que me faltava. Seu Firmino ainda está duvidando das minhas palavras!
— Não estou duvidando do senhor não! Eu só quero entender esta parte da estória, só isso!
— Pois eu vou lhe explicar melhor esta parte da estória, seu Firmino.
— Muito agradecido, seu Alexandre.
— Cesárea.
— Que foi, Xandu.
— Vá lá no quarto e, de  dentro do baú, me traga a garrafa.
— Oxente, seu compadre, não precisa trazer a garrafa não? Que é isso? Cruz credo, deixa isso pra lá, homem?
— Meu padrinho, deixe disso, viu? Seu Libório tem razão, não carece de nós botarmos os olhos no capeta não.
— Cesárea, eu não vou te pedir de novo, mulher! Me traga logo a garrafa!
— Estou indo, estou indo, Xandu. Não precisa gritar!
— Eu vou-me embora... mas é agora! Seu Firmino que vá sozinho pra casa. Eu já me fui. Boa noite!
— Espere seu Libório, não se vá!
— Meu padrinho, o senhor me desculpe, mas hoje vou dormir na casa do seu Libório. Aqui não fico não.
— Cesárea... ô Cesárea... anda com esta garrafa, mulher. O seu Libório e a Das dores já se fugiram de medo. Se vossemecê demorar demais o seu Firmino vai dar no pé também. Ande logo.
— ...
— Cesárea... mas que diabo de barulho foi esse aí no quarto, mulher?
— Oooooxe... Deixei cair a garrafa, Xandu. Ela se quebrou em mil caquinhos.
— Ué, seu Alexandre, a garrafa quebrou? E cadê o capeta?
— Oxente, seu Firmino, não seja leso das idéias. Vossemecê não viu ele passar aqui na cozinha, bem nas fuças do senhor, e sair pela porta pra se fugir na escuridão da noite?
— hum...ora, como é que eu posso ver o capeta seu eu sou cego, seu Alexandre?
— Ah... pois, então, não duvide daquilo que o senhor não pode ver, seu Firmino.
— E agora, Xandu?
— Ah, aí está Vossemecê, minha querida. Me traga outra garrafa.
— Está aqui, Xandu.
— Agora, faça companhia pro seu Firmino, este cu de encrenca, até na casa dele, viu?
— Ué, aonde o senhor vai a esta hora da noite, seu Alexandre?
— Oxente, não me arrelie mais do que já estou, seu Firmino. Eu vou é sair à rua pra vê se eu ainda ponho as mãos naquele capeta de novo. Boa noite e passe muito bem!
Comentários   

#3 Valim » 06-03-2013 03:31

:roll: Seu conto é muito bom escritor.
+1 +−

Valim

#2 Lucas Maziero » 20-05-2012 15:11

Pelo que pude entender Isaac, para se tornar humanizado, precisou "sentir" os sentimentos malévolos do ser humano. Gostei de seu conto, bom de ler. :-)
+1 +−

Lucas Maziero

#1 israel augusto furtado santos » 15-05-2012 21:55

gostei desde conto pois tem um pouco do estilo do Asimov , o unico problema é o fato de ele ser muito curto e se fosse um conto do Asimov teria mais paginas, com mais espaço para o desenvolvimento do enredo, alias este conto daria um otimo romance, mas não muito longo.
outras historias do Asimov que recomendo
"sonhos de Robo" "o menino feio" a coletanea "eu, robo" "Nemesis" "A Fundação" e o respectivo preludio "o fim da eternidade" e alguns ouros que não lembro o titulo. 8)
\m/.o\./o.\m/
+1 +−

israel augusto furtado santos

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