O Fantástico Literário

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O FANTÁSTICO LITERÁRIO: UMA BREVE EXPLICAÇÃO DO GÊNERO

Sofia Geboorte

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Na última década muito se tem ouvido falar de livros e especialmente séries de literatura fantástica, contos fantásticos e todo o tipo de literatura cujo sobrenome seja fantástica. Contudo, não se pode por todas essas fantásticas histórias dentro da mesma cômoda sem que haja gavetas para separá-las. Desde o século XVIII, com o advento dos movimentos românticos, especialmente o Sturn und Drang alemão, o fantástico tem se fragmentado em inúmeros subgêneros, como o gótico, alta fantasia, terror e mesmo ficção cientifica. Mas apesar dos inúmeros estudos sobre obras fantásticas, poucos tiveram a audácia de defini-lo como gênero.

Alguns escritores em ensaios tentaram traçar algum teor teórico para a explicação desse gênero que por séculos subverteu o leitor para a realidade fantástica que há em si mesmo. H.P. Lovecraft escreveu em 1927 o livro O Horror na Literatura Sobrenatural, no entanto foi Peter Penzoldt com subsídios freudianos, definiu o fantástico olhando para o conteúdo psicanalítico dos textos, em sua obra The Supernatural in Fiction.

Para a explicação das inúmeras vertentes que o Fantástico possui é essencial saber discerni-las, nos detenhamos, portanto, apenas a definição do teórico literário búlgaro Tzvetan Todorov, que escreveu em 1970 a Introdução à Literatura Fantástica, a maior obra no que diz respeito ao fantástico literário.

Todorov traça três conceitos máximos sobre o gênero, para o teórico há os chamados ‘entre gêneros’, maravilhoso e estranho, que são a divisão entre os dois mundos que ligam e confundem o real e o mítico ou sobrenatural. O Maravilhoso é a condição em que os seres fantásticos e as próprias situações singulares não afetam a sensibilidade dos personagens, e consequentemente do leitor também não. Podemos exemplificar o Maravilhoso com o subgênero Fantasia. Há diversas obras que compreendem esse gênero, a mais conhecida, e que se encaixa perfeitamente, é a trilogia O Senhor dos Anéis do mestre J.R.R.Tolkien, pois na Terra Média as criaturas fantásticas, os eventos mágicos convivem em perfeita harmonia com os humanos. Não é apenas a criação de outro mundo, pois o Maravilhoso ocorre em nosso mundo também, mas sim quando há uma espécie de acordo prévio entre o narrador e o leitor, para que este perceba que no universo literário no qual ele está se inserindo através da leitura, tudo é permitido, não há estranhamento.

Pois a definição de Estranho por Todorov implica num acontecimento em que há alguma explicação racional, podendo ser cientifica ou biológica. Uma cena lida diversas vezes em inúmeros contos e romances sobrenaturais, e mesmo em filmes e seriados, é quando ocorre algo que pertence ao fantástico, uma cena de horror em que o personagem se encontre numa situação que seria impossível em nosso mundo real, mas de repente ele acorda e percebe que tudo foi um sonho. Sendo assim, o Estranho é um gênero que engana um pouco o leitor, pois ele só se define no desfecho da obra, apenas quando se descobre que o fantasma era alguém e não uma entidade, que o lobisomem é um homem com hipertricose, ou que tudo foi somente um sonho e não existiu de fato. O Estranho é capaz de confundir o leitor, mas que sempre se revela no final.

Mas e o fantástico propriamente dito, onde se encontra? O Fantástico na verdade é tênue linha que divide o Maravilhoso do Estranho. Todorov o define mais precisamente

"O fantástico é a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, face a um acontecimento aparentemente sobrenatural." (TODOROV. Introdução à Literatura Fantástica.p.31) 

O Fantástico resume-se como a hesitação que o texto provoca no leitor, sem essa hesitação, incerteza, mesmo o medo, não há o fantástico, pois então o texto irá se desvirtuar para o Maravilhoso ou o Estranho.

No que diz respeito à obra ainda podemos citar o seguinte trecho:

A hesitação do leitor é pois a primeira condição do fantástico. [...] será necessário que a hesitação seja representada no interior da obra? A maior parte das obras que preenchem a primeira condição satisfazem igualmente a segunda; [...] (TODOROV. Introdução à Literatura Fantástica.p.37)

Frente ao Fantástico, segundo Todorov, o leitor não pode confiar completamente em sua interpretação, pois apenas duvida dos acontecimentos, que está sempre entre o real e o imaginário.

Pode-se ver claramente essa hesitação quando o narrador do texto é homodiegético, ou seja, narrador-personagem, pois sempre haverá falas como “acredito, suponho, pareceu-me um sonho”, que estão postas no texto justamente para causar essa incerteza se foi ou não algo real. Se não houvesse tais falas, que trazem a incerteza, então já teríamos passado do gênero Fantástico para o Maravilhoso, como acontece no mundo de Tolkien, onde não há ligação com nossa realidade. Quando há, aceita-se perfeitamente o sobrenatural como algo que faz parte da realidade, que é o caso da série de livros Vampiros Sulinos, obra em que a americana Charlene Harris, introduz os vampiros como pertencentes ao nosso mundo real, com direitos e tudo o mais.

Porém não é somente o sentimento de hesitação que o texto provoca no leitor que define o fantástico numa obra, o gênero precisa ir um pouco mais além do cenário e das palavras certas para se manter na linha que divide o real e o imaginário. Pois o mais importante é o discurso do texto, quando um autor escreve algo que tenha a pretensão de ser fantástico, e não estranho ou maravilhoso, ele sempre optará por narradores intradiegéticos, ou seja, homo e autodiegéticos. Simplificando os termos, para que o texto seja mesmo fantástico, e cause a tão procurada hesitação no leitor, que também é o que o prende a leitura, o autor irá narrar sua história ou em primeira pessoa, sendo que esse personagem deva ser o protagonista, o que o define como autodiegético, ou em primeira pessoa mas que o narrador seja uma das personagens secundárias, ou narrador homodiegético. Essa pequena distinção entre os narradores, permite mais facilmente que o autor tenha o domínio da hesitação sobre o texto, e faça de sua história fantástica.

Edgard Allan Poe trabalhou muito com essas perspectivas de narrador, por isso podemos definir que praticamente todos seus contos possuem a tão aclamada hesitação, como o conto Ligéia que trabalha essa hesitação junto com o conflito psicológico do personagem sobre a qual Todorov diz se definir o gênero fantástico. Pois nunca se deve confiar num narrador em primeira pessoa, ele sabe apenas sua versão da história, e o leitor, que fica condicionado a olhar somente por um ponto de vista, nunca saberá qual a verdade.

Transportamos para cá um gráfico que explica o cruzamento desses três gêneros, presente no livro Introdução à Literatura Fantástica de Todorov:

Estranho Puro

Fantástico Estranho

Fantástico Maravilhoso

Maravilhoso Puro

Logo temos novamente os três gêneros sobre os quais Todorov discursa, mas está faltando um, não está?

Vemos o Estranho Puro, que compreende os textos, ou relatos que acabam sempre por ter uma explicação, assim como o Fantástico Estranho, que é a hesitação (duvida) de que o que está acontecendo na obra é real ou não, antes de ser descoberta a triste realidade. Ainda sobre o Estranho Todorov diz:

[...] o estranho não cumpre mais que uma das condições do fantástico: a descrição de certas reações, em particular, a do medo. relaciona-se unicamente com os sentimentos das pessoas e não com um acontecimento material que desafia a razão (o maravilhoso, pelo contrário, terá que caracterizar-se exclusivamente pela existência de feitos sobrenaturais, sem implicar a reação que provocam nos personagens).

Fica claro que o Maravilhoso Puro é quando as criaturas fantásticas estão inseridas no cotidiano, e o Fantástico Maravilhoso, são os textos que se iniciam como fantásticos, mas que no fim acabam por aceitar os acontecimentos como pertencentes ao seu mundo, como ocorre no inicio do livro Eragon, em que antes de encontrar o ovo o personagem hesitava sobre a existência do sobrenatural, mas que acaba por aceitá-lo.

Bem, já vimos o Estranho Puro, Fantástico Estranho, Maravilhoso Puro, Fantástico Maravilhoso, mas onde se encontra o Fantástico Puro?

Todorov diz simplesmente que o Fantástico Puro é a linha do gráfico que divide o Fantástico Estranho e o Fantástico Maravilhoso. Sim, o puro gênero fantástico é a hesitação maior, a grande incerteza que se faz na mente do leitor sobre o que é ou não real, pois o leitor quando se depara com o Fantástico Puro, jamais saberá em que acreditar. São narrações, contos e romances nos quais sugere-se algo sobrenatural, mas sem que seja explicado.

Dessa forma Todorov traçou a definição do gênero Fantástico e seus vizinhos o Estranho e o Maravilhoso, permitindo não somente que obras fossem analisadas com mais precisão, mas que aqueles que pretendem escrever algo nesse sentido, saibam qual caminho trilhar.

LIVROS CITADOS

O Senhor dos Anéis – J.R.R. Tolkien

Vampiros Sulinos – Charlaine Harris

Ligéia – Edgar Allan Poe

Eragon – Christopher Paolini

 

BIBLIOGRAFIA TEÓRICA

FURTADO, Filipe. A construção do fantástico na narrativa. Lisboa: Livros Horizonte, 1980.

PENZOLDT, Peter. The Supernatural in Fiction. London: Peter Nevill. 1952.

SÁ, Marcio Cícero. Da literatura fantástica: teoria e contos. 144 p. Dissertação (Mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada). São Paulo: USP. 2003.

TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. Trad. Maria Clara Correa Castello. São Paulo: Perspectiva, 1975. (Debates, 98).

Comentários   

#13 danyelle » 13-07-2014 18:21

e estranho a alma no cemitério cruz credo
−1 +−

danyelle

#12 rui » 22-06-2014 21:46

Bom artigo, mas penso que a obra mais importante para a compreensão do género fantástico foi "A construção do fantástico na narrativa" de Filipe Furtado, ele parte da teoria de Todorov mas vai muito mais além...
+1 +−

rui

#11 Vania » 26-05-2014 03:50

óTIMO TEXTO Parabens e muito obrigada! juro q só entendi Todorov com esse seu comentario! Abraco ;-)
+1 +−

Vania

#10 ana paula » 29-01-2013 18:06

faltou citar um dos contos fantasticos de murilo rubião, brasileiro.
+1 +−

ana paula

#9 Mauricio Campos » 17-04-2012 23:46

Muito bom o seu texto, gostoso de ler. Tenho uma pasta aqui no meu PC chamada "Writing Better" que são para textos como o seu, que nos fazem escrever melhor.

Abraço 8)
+1 +−

Mauricio Campos

#8 Sofia Geboorte » 12-01-2012 01:15

Caro Rossi, muito bem lembrado sobre o texto de Freud (O Inquietante, em alemão, Das Unheimliche). Quanto a nacionalidade de Todorov, perdoe-me a confusão (que já foi corrigida), pois apesar de ser bulgaro, ele foi radicado na França, e grande parte de seus textos foram escritos em frances.
Entretanto, sobre o ensaio de Freud, que eu já havia lido, as idéias dele não colocam Todorov por terra em momento algum, pois em O Inquietante, o maior assunto discutido é o Duplo, ou o Outro, presente nos textos fantásticos e de suspense. Freud faz uma análise mais aprofundada sobre as origens do outro na literatura fantastica, e como ele se infiltra nos textos, dando seu teor de suspense, pois o outro sempre é o estranho que eu temo. Esse assunto é muito bem abordado também pelo linguista e filósofo russo Mikhail Bakhtin, que mesmo não tendo estudado mais a fundo o fantastico, teve como base de sua teoria o Duplo ou o Outro, que em Freud pode ser tomado como sendo o Estranho que atormenta o leitor, proporcionando a atmosfera fantastica no texto.
A pretenção desse artigo é justamente mostrar as classificações do Fantástico, como foi muito bem lembrado no comentário do Alvaro Domingues, algo que Freud nao fez.
Obrigada por seu comentário e por todos os outros que leram e gostarm do artigo

FREUD, Sigmund. O Inquietante [Das Unheimliche]. In: _______. Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v. 14. p. 329-376
+4 +−

Sofia Geboorte

#7 Cido Rossi » 13-12-2011 02:44

Texto bastante informativo para quem não conhece o clássico de Todorov. No entanto, existe um outro texto mais importante sobre o fantástico do que o livro do crítico búlgaro (Todorov não é francês) e que, claro, o próprio Todorov evita por que coloca em cheque as classificações que ele faz: trata-se do ensaio chamado "O estranho" (1919), de Sigmund Freud.
Não há como entender o fantástico sem ter lido este texto.
Fica a recomendação. ;-)
−2 +−

Cido Rossi

#6 Alvaro Domingues » 12-12-2011 09:40

Excelente texto!
Há uma confusão de termos (que um dia alguém vai colocar os pingos nos ii) entre o fantástico literário (muito bem descrito neste artigo) e o gênero fantástico, que engloba o horror, a ficção científica e a fantasia. Infelizmente os acadêmicos usam esta classificação de Todorov para excluir o boa parte da literatura de gênero. Todorov não fez julgamentos, apenas criou uma classificação, bem precisa e útil a quem se dispõe a fazer crítica.
A confusão está em usar a palavra "fantástico" para funções distintas. A questão do Fantástico literário (a colocação do adjetivo"literário" já esta aí numa tentativa de contornar a discussão) está bem solidificada e dificilmente alguém pretendera contestar Todorov. Do mesmo jeito a expressão "gênero fantástico" é bem aceita entre os que praticam literatura de gênero (a palavra gênero também está aí para contornar o problema).
+1 +−

Alvaro Domingues

#5 Ramon Bacelar » 03-12-2011 11:01

Um artigo bastante informativo e que serve como um "guia de leitura". Parabéns Sofia. ;-)
0 +−

Ramon Bacelar

#4 Swylmar Ferreira » 02-12-2011 16:54

Excelente texto Sofia, parabéns. Ensina como caracterizar e separar os contos.
0 +−

Swylmar Ferreira

#3 Emerson Pimenta » 02-12-2011 15:24

Nuss, que texto fodástico!
Meus parabéns Sofia!
Realmente esclarece muito, além de ser otimo de se ler!
;-)
0 +−

Emerson Pimenta

#2 Elsen Filho » 02-12-2011 14:43

Realmente muito bom.

O estranhamento como elemento chave do fantástico me pareceu algo bastante acertado, afinal não justamente dessa pulga atrá da orelha que mais gostamos?
0 +−

Elsen Filho

#1 Tânia Souza » 02-12-2011 12:23

Excelente texto Sofia, muito boa a forma como destaca a sensação do "estranhamento". Ela é essencial na escrita, e claro, leitura do texto fantástico.
0 +−

Tânia Souza

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